Rabiscado por Decca às 15h17
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NÓS DE SANGUE
Eram uns três ou quatro hematomas
Batia-se muito nas poltronas, dizia.
Era nada, eram marcas do sangue dela.
Nada tinha mais em casa.
Nada tinha de seu e nada de si.
Aguardava em casa, dia-a-dia, noite e dia,
cuidando, para que as marcas fossem só suas.
Eram, as marcas, as únicas coisas que lhe restavam
e lhe garantiam a vida.
Irmã e mãe, para fora de casa na hora da chegada.
Ela suportava, ela apenas ficava.
Precisava de novas marcas. Precisava de vida.
O irmão voltava. Alucinado, queria mais.
Nem um quilo de feijão para a troca.
Tinha, por último, ido o caderno da menina e os dois livros surrados recebidos após campanha da escola.
Mal deu para o cheiro e agora ele chegava e ela sorria,
ele nada teria para levar, dessa vez,
mas ela ganharia as marcas, àquelas que lhe garantiam a vida.
Se lhe perguntava da escola, respondia que não ia mais.
Se lhe perguntava de comida, respondia que não comia mais.
Se lhe perguntava da vida, não respondia, mas se via que não vivia mais,
a não ser, quando olhava as marcas e sentia raiva.
Rabiscado por Decca às 13h51
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PARECENDO-SE COM A VIDA
- Quando eu era menina...
- Quando foi isso?
- Antes!
- Antes do que?
- Antes,... quando eu era menor!
- Você quer dizer que antes de ser um menino, você foi uma menina?
- Isso!
- E antes de ser menina?
- Não sei!
- Você nasceu menino ou menina?
- Menina!
- E gostava de ser menina?
- Ahãn!
- Era bom? O que você fazia?
- Sei lá,...
- E quando virou menino? Quando deixou de ser menina?
- (silêncio)
- O que te faz pensar que antes você era uma menina e hoje você é um menino?
- (pensando) O parangolé!
- Entendi! Antes você não tinha um parangolé, assim como nas meninas. Ou ele ainda não havia crescido e quando ele cresceu, você virou um menino!
- É!
- Que bacana! (encantada)
- E você, já foi um menino?
- Não que eu me lembre, mas acho que sempre fui menina.
- Então não sou mais seu amigo!
- Você acha que se eu não experimentei ser um menino, antes de ser menina, eu não poderei te entender e não poderei ser sua amiga?
- É!
- Então será que eu posso continuar sendo a sua tia e você o meu sobrinho?
- Pode!
- Eu te amo muito.
- Eu também! Agora vamos brincar?
“Se não se parece com a vida, não é psicanálise” e o meu sobrinho com 4 anos, me dando um banho de teoria, vivendo o que eu apenas leio em Freud e Lacan e, dando conta da sua sexualidade e das diferenças.
Rabiscado por Decca às 08h50
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RECOMEÇANDO...
... ALÉM DO PRINCÍPIO DO PRAZER!!!
O que tanto isso significa?
Aos poucos, saberão,...
Aos poucos, saberei... ou não!
Obrigada a cada um que esteve aqui em silêncio, em apelos, em compreensão!
Depois de tanto tempo, sem jeito, mas sabendo onde buscar "a dor e a delícia de ser" o que sou, mergulho no que me é familiar e aconchego, e "pago uma dívida" antiga por amar muito a esses dois:
D.N.A.

Podia ser um gene, outro, qualquer.
Qualquer um,
mas me fiz de um dos deles
ou mais de um.
De cada lembrança remota
uma inscrição primeva.
Um orgulho que mergulho nas lembranças
das artimanhas de nossas infâncias,
agora, admiração!
Um e outro, tão distintos
de mim, entre si e tão iguais. Um primo, um irmão.
Abençoada prole e tomara que seja assim e assim seja,
para todo o sempre, aos que se foram, aos que virão
e aos que já estão.
Rabiscado por Decca às 18h56
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