“PAPIRUS em nova fase - em nova temporada - ALÉM DO PRINCÍPIO DO PRAZER
BLOG - STEER RH CONTATO













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Mais além do Princípio do Prazer
 Em .A. aprecio e daí, atrevo-me
 Absorvendo mim Mesmo
 Anti-Marmotagem
 Aquarela das Cores
 Em .B. bailo ao bel-prazer
 Botequim Poético
 Breves Histórias Cotidianas
 Em .C. cadencio em movimentos
 Celebreiros
 Em .D. desejo em desmensura
 De Gaulle Tinha Razão
 Dígito
 Em .E. efervecente emoção
 Ensaios do Eu
 Escucha me Porra
 E tenho dito
 Eterno Amor de Platão
 Em .F. farto-me da fome
 Feita em Versos
 Em .G. garimpo gozos
 Grande Onda
 Giramundo (...) Girassol
 Em .H. de haver faço harmonia
 Em .I. me inspiro com impudor
 Em .J. faço jus
 Em .L. latejo em labirintos
 Em .M. descubro outros matizes
 Mamas e Tramas
 Marcelo Brettas
 Moacir Caetano
 Monolito
 Mude
 Muiraquitã
 Em .N. norteio o que vinga
 Neurotóxicos e Chuvas Esparsas
 No Problem
 No Lado Escuro da Lua
 Em .O. observo o oculto e ouso
 Em .P. percorro-me em paixão
 Patrícia Costa
 Pérolas de Pérola
 Primícias Poéticas
 Em .Q. alimento meu querer
 Em .R. reedito o risco
 RevelAções
 Revelando Segredos
 Em .S. saboreio e me sincronizo
 Sabor de Gente
 Semeando Palavras
 Sem Pé Nem Cabeça
 Shilolo
 Em .T. tesão, textura e talento
 Textura
 Troca Letras
 Em .U. me umideço e ultrapasso
 Em .V. valorizo e verborrageio
 Vergonha dos Pés
 Véu de Maya
 Vida como uma Rosa
 Em .W. viro wildiana
 White Star
 Em .X. xereteio
 Em .Z. zanzo em zás-tras
 
 FOTO RABISCOS
 Ady Morena
 Kele Santana
 Moacir Caetano I
 Moacir Caetano II
 Moacir Caetano III







ALÉM DO PRINCÍPIO DO PRAZER
 

ALÔ, MÃE?!!!

Era um momento importante e todos precisavam apresentar resultados e agora, mais do que nunca. Já estavam envolvidos assim, nem se lembravam desde quando. Com o ritmo intenso, mesmo convivendo horas a fio, mal se falavam, não havia tempo, a não ser quando ouviam um resmungo de alguém insatisfeito ou uma gargalhada no canto da sala após alguma piada sarcástica proferida frente as suas próprias mazelas. O serviço tomava-lhes um empreendimento vital já que de suas decisões dependiam o destino de tantos e já não sabiam mais se iniciavam ou se finalizavam um trabalho, pois algumas surpresas acentuavam os afazeres. Era uma rotina cíclica e que não tinha fim. Quando diminuia a pilha de documentos, em seguida, uma nova e maior ainda, surgia.

 Andava sentindo-se sozinha apesar de tanta gente ao redor. Já não ia para casa há algum tempo e a saudade batia forte no peito embora não pudesse abandonar o recinto já que era correta demais para deixar que algo sob sua responsabilidade ficasse inacabado ou pendente. Algumas vezes, seus ouvidos, que naquele local eram apenas acostumados às solicitações de trabalho, escutavam um som diferente, um choro, e com seu coração imenso, acolhia atenciosa a dor do colega e, ao final, dizia: "Pegue suas coisas e vá para casa, precisam de você por lá, cubro a sua parte". Era uma equipe com um pouco mais ou pouco menos de três dezenas de pessoas, e com serviço para o triplo disso. Precisava que seu colega estivesse bem, porque dele, necessitaria de todas as forças no dia seguinte. E ela ficaria bem, afinal o trabalho era de sua responsabilidade e todos esperavam que não falhasse.

De volta a sua mesa, frente a papéis, leis, processos e mais processos empilhados em meio a poeira e a copinhos descartáveis de café, haviam fotos. Amava sua família mais do que a tudo na vida e as fotos faziam-na sentir-se menos solitária. No fundo, era por eles, tudo aquilo. Lembrou que fazia algum tempo que não ia para casa,- "também com tanto trabalho!"-, justificava-se. Lembrava que havia ido quando o filho mais velho havia apresentado a pecinha de teatro na escola com seus outros amiguinhos e que havia conseguido decorar a sua fala, sozinho, ou fora quando a família havia se reunido para a confraternização do natal. Devia ter sido em uma ocasião ou outra, e pensou: "em que época estamos?". Olhava as fotos e lá estavam todos, e como era linda a sua família. Tocou o telefone, assustou-se e depois lamentou ser despertada de pensamentos tão agradáveis. Ao telefone, uma voz que sabia conhecida, - seu filho caçula -, perguntando se poderia confirmar a presença da mãe no altar durante a cerimônia religiosa. Num sopro, foi tomada em assombro, não podia estar próximo a data do casamento de seu bebê. Zonza pediu para que chamasse o seu pai. "Mãe, o pai morreu há vários anos!". Silêncio.



 Rabiscado por Decca às 16h20 [] [envie este rabisco]


DO FINADO FULANO

A garotinha, antes pintada no canto escuro do mundo, se perdeu na inundação. Desbotada, era um ponto não de luz ou de aconchego. Sempre soube o que era pelo que lhe faltava e não pelo que tinha, porque de seu, não tinha nada. Não era a filha mais velha. Não era a única neta. Não tinha a voz que queria, não era loira e sequer tinha os cabelos assim. Se conhecia alguém, ela era a filha de Cicrano, irmã de Beltrano e ela mesma, ninguém. Namorou com Fulano e casou, e daí passou a ser a mãe das meninas. E foi assim, bastante conhecida até. Pouco a pouco, foi perdendo o que não tinha, o avô, a avó e a madrinha. O pai já fora antes, em seguida os irmãos e logo depois, enviuvou. Passou a ser lembrada por esposa do finado Fulano e era bastante conhecida assim, sabendo todos, quem ela não era. No dia em que morreu, saiu no noticiário seu nome. Estava lá, em negrito, e com destaque no nome do meio, que nem ela sabia que tinha. Ao enterro, compareceu ninguém, já que no que era, não sabiam que era alguém. Os amigos de Cicrano, Beltrano, Fulano e até as meninas, não souberam do acontecido e ficaram todos, estarrecidos, com o sumiço da moça. Mas havia agora uma lápide todinha sua, inscrita: "seu nome e sobrenome, data de nascimento e morte". Ela, ali, antes desconhecida, podia ser.



 Rabiscado por Decca às 09h10 [] [envie este rabisco]


E ASSIM,... VOU VOLTANDO...

...e já que perdi o jeito,... publico um texto da Kel do atual Troca Letras, amiga querida que, sentindo-se surpresa, melancólica e abandonada (rs*), quando decidi "sair por aí" em busca da felicidade e de mim(1),... "traçou", carinhosamente, um conto pra mim. Querida,... obrigada, mais uma vez pelo carinho e por demonstrar em letras e emoção,... sentimentos tão difíceis de expressar(2),... .

(1),... encontrei parte do que precisava encontrar, porém percebi que os que por aqui deixei, também fazem parte da minha busca,... não dava para estar, simplesmente, por aí,... precisava também estar por aqui;
(2),... obrigada a cada visita e a cada comentário deixado, durante esse período. Foram lidos com carinho e serão retribuídos com a mesma intensidade.

Dedico este texto à minha adorada amiga Decca, que também está às voltas com a sua felicidade. Eu também espero que um dia ela volte e por hora só desejo que ela seja muito, mas muito feliz...
Kel do http://trocaletras.zip.net
(ex-Val do http://foradaordem.weblogger.terra.com.br/)
(ex-Kelly Santana do
http://noticiasdosubmundo.weblogger.terra.com.br/)

Tati ficou tanto tempo longe de casa que nem se deu conta. Envolvida em seus rolos sentimentais, trabalho, baladas, gente nova, gente velha, projetos, ela só sentiu falta da Deusa quando voltou, naquele dia, tarde da noite depois do fechamento da revista. Durante este tempo, dormia por aí, na casa de amigas, em motéis ou até mesmo na editora, quando trabalhava até alta madrugada.

Botou a chave na fechadura do apartamento e um vento frio lhe beijou o rosto. Empurrou a porta e sentiu um cheiro diferente vindo da casa, um odor de mudança. Jogou a sacola de roupa suja no chão, a tiracolo na mesa da sala e andou pelos cômodos para ver se a Deusa ainda não havia saído para trabalhar.

Duas pessoas completamente diferentes vivendo sobre o mesmo teto há mais de 9 anos. Se conheceram por acaso, em um barzinho. Um amigo da Tati ia tocar e na mesma banda havia uma amiga da Deusa. Como todos os convidados se sentaram à mesma mesa, não demorou muito para a Tati puxar papo. Jornalista, extrovertida e falante, a princípio começaram a conversar sobre trabalho. A Deusa era enfermeira, trabalhava em um hospital da rede pública e sempre que o cansaço deixava gostava de sair, ver gente, nem que fosse só para ficar sentada, tomando alguma coisa enquanto a mente esvaziava os arquivos de más lembranças e os preenchia de música e rostos saudáveis. “Estou cansada de ver gente estrupiada todos os dias”, disse para a Tati.

Começaram o papo como estranhas e terminaram como amigas de infância. Mulheres realmente têm este dom. Não sabiam como explicar, mas era como se já se conhecessem desde sempre. No meio do papo a Tati comentou que estava saindo do apartamento que dividia com outras duas amigas por falta de entrosamento. Coincidentemente a Deusa procurava uma pessoa para dividir o apê, desde que terminou seu romance com o Tadeu.

“Sabe que a gente podia tentar?”, sugeriu a Tati logo de cara. Ficaram de se encontrar no meio da semana para que a jornalista conhecesse o lugar. Não só conheceu como adorou: era perto do metrô, do mercado, o quarto era grande, com espaço para todas as suas tralhas e o inseparável computador. “Negócio fechado!”, e Tati deu um entusiasmado abraço na Deusa que foi logo buscar a champagne para comemorar.

A mudança transcorreu sem maiores problemas, exceto a porta do armário do quarto que caiu do caminhão na mudança e teve de ser substituída por uma canga de Bali. “Até que ficou bonito”, consolou a Deusa.

Desde então se viam pouco porque os horários da Deus eram sempre muito complicados. Uma semana trabalhava 24 horas direto, chegando em casa de madrugada. A esta hora, ou a Tati estava chegando da balada, ou indo dormir depois de muito trabalho em casa. Marcavam de conversar através de bilhetinhos pendurados na porta da geladeira. A Deusa deixava uma frase e a Tati completava. Ou então escreviam longas cartas e deixavam em cima da mesa para saber o que estava acontecendo com a outra.

(continua no post abaixo...)



 Rabiscado por Decca às 16h21 [] [envie este rabisco]


(CONTINUAÇÃO DO POST ACIMA)

Procurou no quarto, na sala, na cozinha. Nada da Deusa. Na porta da geladeira nenhum recado. Quando olhou para a mesa, Tati viu uma carta, dentro de um envelope cor-de-rosa. Achou bonitinho e abriu. Só então se deu conta de que a Deusa não voltaria tão cedo, ou talvez não voltasse nunca. Havia conhecido um rapaz no hospital há uns três meses, que chegou no PS com fratura exposta depois de cair da moto na volta de uma festa. Enquanto a Deusa ministrava os primeiros socorros, ele a mirava como a uma imagem sacra. Quando teve alta pôde convida-la para sair e agradecer os cuidados tão singelos da enfermeira. Desde então não se largaram mais até que ele a convidou para uma viagem, sem destino, na garupa da sua moto. Precisava dela como amiga, namorada, companheira e, é claro, precisava de seus cuidados caso algum imprevisto acontecesse. Deusa achou o pedido tão sincero e irrecusável que na mesma noite arrumou uma mala, escreveu uma carta para a Tati e partiu, dizendo apenas que estava “às voltas com a sua felicidade”.

Tati sentiu um aperto no peito, um nó na garganta, uma vontade de chorar copiosamente pela amiga. Sentiu-se abandonada, um tanto traída, sentiu até medo por ela. “Nem para ligar...”, pensou. Aí percebeu que há semanas largou o celular no fundo da mochila descarregado. Ligou o carregador na tomada, o celular no carregador e se pôs a ouvir as mensagens. Finalmente encontrou o que buscava.

“Tati, já vi que você não está na área de alcance mas eu precisava falar com você. Cê sabe que eu odeio falar sozinha, mas vou ter que deixar esse recado senão não vou me perdoar. Hoje...daqui há pouquinho, tô me jogando no mundo, sem rumo, sem destino. Não pirei, não. Só deixei de ser bundona e vou me arriscar um pouco. Você sabe que eu te amo, você foi a melhor coisa que me aconteceu nesses anos e por isso quero que você também corra atrás da sua felicidade. Não sei quando volto, não sei nem se volto. De qualquer forma o apê agora é seu. Faça dele o que achar melhor e...” Acabou o tempo da mensagem. “Merda de operadora”, praguejou. Mas a próxima também era dela. “Celular é mesmo u ó, hein amiga? Então, era isso. O apê é seu e você pode chamar outra pessoa para dividir o aluguel. Aqui na mesa tem uma carta com os detalhes. Tô indo, me deseja sorte porque eu quero toda, em dobro, pra você também. Fica com Deus e a gente se tromba por aí. Beijos”

Não dava para acreditar. A Deusa, justo a Deusa. Viu o quarto dela arrumado, as roupas que não foram levadas guardadas em malas. Não tinha mais os cremes no banheiro, nem os doces na dispensa, nem as fotos na parede. E a Tati passou o resto da noite chorando. Primeiro de raiva, depois da mais pura e terna saudade. Sentiu, no fundo do peito que a amiga ia seu muito feliz. Mais do que tudo, desejava isto para ela. E finalmente se sentiu em paz.

“Amanhã é outro dia. Quem sabe ela não volta?”



 Rabiscado por Decca às 16h16 [] [envie este rabisco]